Após ser derrotado na primeira rodada pelo Imperador Trajano – todos os prognósticos davam conta de que aquele não seria um bom dia para o nosso grande Tiago Braz que em outras ocasiões aterrorizou a classe enxadrística da fronteira e região quando vestia o uniforme de seu alter ego de Menino Prodígio ou Robin dos Pampas. Porém como ainda restavam seis rodadas pela frente e a julgar pelos adversários também a ideia de uma recuperação não era animadora.

Tiago olhava para os possíveis adversários e os eventuais pontos 0800  seriam apenas contra Santiago Maidana – o filho do Félix, que estava em oitavo da segundona com apenas 1881  e um eventual e indigesto bye. Tanto faz, logo pensou. Sisudo como sempre não tibueou em buscar refugio no fundo de sua consciência para – quem sabe receber algum conselho e corrigir os erros que culminou com sua vexatória derrota contra o Imperador Trajano Souza.  Na teoria, logo pensou com seus botões – ele era e é mais jogador do que aquele novato recém-chegado que  ocupa um lugar de destaque no ranking da primeira divisão. Mas como fama não ganha jogo, caiu na real e decidiu que a partir daquele instante procuraria um local secreto para vestir seu uniforme de super-herói tupiniquim e ir à luta. Poxa, não fora multicampeão à toa.

Veio a segunda rodada e imagine quem surgiu diante do agora já representando seu alter ego Robin dos Pampas. Ninguém menos do que o campeão de Rivera Chico e duas vezes vencedor dos torneios na casa do Valmir. Sim. Ele. O defensivo e calculista Félix Maidana.  Mais conhecido como o rei das Negras. Calma. O termo se refere a cor das peças em questão que ele jogará. Félix tem um jogo defensivo e muito truncado – difícil de entrar em sua defesa e chega a desconcentrar seus adversários pela sua forma anti-agressiva e passiva de jogar.

Caro hipotético leitor – tente imaginar alguém que tenha a capacidade de simular  Nistagmo compulsivo espontâneo e fique sem  piscar durante minutos  apenas movendo freneticamente as orbitas oculares percorrendo de ponta a ponta os 64 quadrados do tabuleiro sem lubrifica-las. Pois é. Este é Tiago Braz que só respira após efetuar seu lance e acionar o relógio. Muitos acreditam e sugerem que ele deveria participar daquela série do Discovery Chanel que estuda os super humanos e suas habilidades especiais. Mas voltando ao mundo dos normais – após ser derrotado na primeira rodada, ele veio com tudo e só faltou atirar o Félix no chão e pisar nele, pois a agressividade foi de assustar a todos.  Mesmo jogando na mesa quatro ambos tiveram todas as atenções despertadas pela velocidade com que Tiago jogou nos últimos minutos e até segundos. Aliás, esta é sua principal característica. Jogar tudo o que sabe quando o tempo vai se esvaindo. 110%.  Um conselho. Quer vencer Tiago faça isso antes que seu tempo pendure a bandeira no relógio analógico ou os segundos comecem a decrescer no digital. Caso contrário o bicho vai pegar e a derrota será vexatória e iminente. Tem que matar o monstro quando ainda é pequeno. Se deixar crescer. Bem. Aí não terá nenhuma chance.

Terceira e quarta rodadas as vítimas tiveram o mesmo destino. Penduradas no cadafalso do Menino Prodígio – bem já não é mais um menino, tem vida própria, funcionário conceituado de uma empresa federal e pai de família dedicado. Pele lisa de bebê, barba bem afeitada e cabelo liso castanho claro lambido para o lado a primeira vista não assusta  ninguém. Sorriso tímido e bastante acanhado ele se transforma quando deixa de ser humano quando começa a jogar. Na sequencia foram três vitórias de tirar o fôlego. Depois de o Félix ter sido massacrado foi a vez do Rafael El Hanini e do anfitrião. Pois é. Não poupou nem o dono da casa que estava oferecendo não um churrasco qualquer – mas O Churrasco de carne de primeira, sem osso, Alcatre, Maminha, Filé Mignon pão de alho assado na grelha (ou com alho como queira) – cerveja e refrigerante à vontade.

Depois de se fartar com tudo do bom e do melhor que se possa imaginar em um almoço de confraternização informal – Tiago teve um mal súbito. Não soube se conter e foi imprudente e quiçá até ganancioso e acabou provando de seu próprio veneno. Acontece que ele estava com a faca e o queijo na mão e não havia necessidade nenhuma  de perder um tempo para promover um Peão e ficar com duas Damas no tabuleiro. Se tivesse escutado o bom senso e observado o relógio iria saber que em quatro segundo contra seus um minuto e meio não tinha como perder a partida.  Nilo teve a chance que precisava. No momento era Rei e Dama contra Rei e Dama com tabuleiro livre e Tiago com um Peão em sétima quase corando. Mas Cruxen que de bobo não tem nada tratou de dar xeque perpétuo e descolou um improvável empate que teve dois sabores. De derrota para Tiago e de vitória para Nilo. Duas caras de uma mesma moeda.

Mesmo assim este empate lhe conferiu o privilégio de seguir jogando na mesa um. Mordido partiu para cima do bom e velho amigo de larga data

Emílio Mansur, de Bagé, que viera junto com o líder do ranking do BFXC e também bajeense Ignácio Marrero. Interessante. O líder do ranking do Bobby Fischer Xadrez Clube de Santana do Livramento é um ianque. Belíssima pessoa. Ele e sua digníssima esposa. Ambos tinham chance de saírem campeões. Dependiam de seus próprios resultados. Mais ainda Emílio que estava com 4,0 pontos contra os 3,5 de Tiago. Mas como afirmam pelos quatro ventos que tamanho não é documento e o de Mansur era maior pelo menos 0,5 e sopravam favoráveis ao empresário e dono do Sistema Engenharia Ltda de Bagé que não sofrera muito na rodada anterior para derrotar seu adversário, tendo portanto, uma vantagem psicológica.  Foi uma verdadeira reedição da bíblica batalha de David contra Golias. Entendamos  como sendo um clichê esta última frase, pois mais uma vez a história se repetiu e o gigante tombou. A vida tanto de Tiago quanto de Mansur fora facilitada pela derrota do Nilo contra Roberto Castillo na mesa ao lado. Mesmo perdendo Emílio seguiu no páreo.

Veio finalmente a sétima rodada. Incrível o título ainda estava em aberto. Tanto Tiago como Mansur ou Castillo podiam sagrar-se campeão e levar 500 reais do primeiro lugar. O segundo e o terceiro receberiam 300 e 200 reais respectivamente. Na mesa um Castillo teve pela frente o Menino Prodígio enquanto na mesa ao lado era a vez do Imperador Trajando Souza ver a coisa grande diante de si. Grande? Não! Coincidentemente neste momento ambos estavam igualados de quatro. Também de quatro estava Castillo e assim ficou quando baixou a guarda e num gesto de cavalheiro se entregou para o Tiago.

O título de campeão ficou com Tiago, o de vice com  Emílio Mansur e de sub vice campeão Roberto Castillo. Para Castillo este grande evento que marcou o torneio de número 964 do Bobby Fischer desde 1992 significou sua volta para a primeira divisão quando caíra no torneio 963, justamente naquele que o homenageara.

PREMIAÇÃO:

ALMOÇÃO DE CONFRATERNIZAÇÃO:

Algumas fotos dos confrontos

 

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