PREAMBULO

Há pouco mais de três meses… Portanto em 2018!

10h30min da manhã. O telefone toca. Não o convencional, mas o celular – daqueles comuns sem muita tecnologia. Como era novo, pois o antigo desativara por ser, bem não vem ao caso entrar em detalhes técnicos… No outro lado (entenda-se por quem estava ligando) uma voz perguntou se eu recebera um e-mail informando do torneio.

– Que torneio?

– A quarta edição do torneio de xadrez aqui em Manoel Viana.

– Ah, Ciro, é tu?!

– Sim, Pedro. Estou para confirmar a data e outros detalhes e quero saber se tu podes vir?

– Claro, mas quando?

– Provavelmente em março.

– Temos tempo, pero no mucho… logo comentei com ele.

– Pera aí. Estou vendo o folder. Legal.

– Mas vai ser dia 9 de março mesmo?

– É quase certo, comenta Ciro em tom de voz baixo.

– Por que está falando tão baixo… Está ruim a ligação.

– Acontece que estou em serviço e não posso falar alto. Tem muita gente aqui.

Em tempo. Ciro Manoel Rodrigues é funcionário da Prefeitura Municipal de Manoel Viana e o decano no xadrez nesta pequena, mas muito simpática – e não menos acolhedora cidade que nestes dias completará 27 anos de emancipação política.

10h43min. Após conversarmos um pouco mais concordamos em finalizar a conversa e eu daria retorno para ele após seu expediente.

E assim aconteceu.

Tratei de organizar as ideias e traçar um plano. Minha intenção era de tentar um ônibus ou van com a Prefeitura local (Santana do Livramento, ou para nós santanenses Sant’Ana do Livramento como historicamente a chamamos carinhosamente) e levar a seleta e privilegiada elite do xadrez fronteiriço. Refiro-me aqui a todos os enxadristas riverenses (da cidade uruguaia siamesa de Rivera que basicamente se tornou uma só, uma fronteira cujos limites são apenas meros marcos formais e limites imaginários separando os dois países), um  venezuelano, outro argentino e não posso cometer a indelicadeza de esquecer do poderoso Joel Chacón, um mestre cubano que recentemente por estes pagos se estabeleceu fugindo do regime….. mais uma vez peço desculpas por não entrar em detalhes, pois não vem ao caso  e se a Interpol estiver lendo esta crônica com certeza vai ser um prato cheio para repatria-lo ao regime castrista da ilha.

No ano passado estive na terceira edição do Torneio  Manoelense e tive o privilégio de levar Valmir Souza e Rafael Hanini. Por sinal. Campeão e vice ao final do certame.

15h00min. Finalmente Ciro atendeu minha ligação. Não esqueçamos. Todos os fatos que o eventual internauta está lendo…aconteceu em dezembro do ano passado. Conversa vai, conversa vem, acertamos que o abdicado CR conseguiria almoço de cortesia para minha equipe se assim eu a levasse. Mas infelizmente isto não aconteceu por motivos ou no singular motivo – que fica mais compatível com a realidade  como veremos no decorrer desta crônica.

– Ciro, meu dileto. Faz um grande favor. Envie para mim e para à prefeitura daqui um convite especial, se quiser redige o mesmo texto – mas enderece ao prefeito argumentando da importância do evento e também enaltecendo a participação de nossa equipe. Fale com o Paulo Puglieiro e redijam em texto legal.

– Pode ser?

– Sim, amanhã mandaremos para vocês.

– Não esqueça que estes documentos deverão ser oficiais e assinados pelas principais autoridades e sem esquecer o teu prefeito, é claro.

– Pode  deixar. Assim que eu tiver tudo eu envio.

– Até mais.

– Tchau.

Duas semanas depois

Às antevésperas do Natal, dia 18 de dezembro finalmente os tais convites finalmente chegaram.

E agora. Minha via-crúcis dava início. Diversas idas e vindas até a prefeitura para contatar o prefeito Ico Charopen todas infrutíferas. Meu plano secundário era chagar direto à sua chefa de gabinete Valéria Argilez. Uma pessoa muito receptível. Pelo menos comigo.

Dei com os burros na água. Valéria estava em outro setor. Fora  promovida à diretora geral da autarquia SISPREM (Sistema de Previdência da Saúde do Município). Não desisti. Insisti. Manhã após manhã esperei pacientemente até que ela me recebesse. Sorte e revés. Se por um lado pude conversar com ela e antecipar todos meus (nossos) anseios… por outro lado o chefe do executivo estava em viagens cumprindo larga agenda nas capitais… Primeiramente em Brasília e depois em Porto Alegre.

Sete de janeiro, uma segunda-feira. 2019

Finalmente recebi a notícia que o prefeito chegara à cidade, mas apenas despacharia a partir do dia 9. Eu nada poderia fazer a não ser esperar. E assim senti o tempo parar. Foram três dias de muita ansiedade. Além do mais o interessado era eu e ele nem imaginava que eu estaria à sua espreita, ao seu encalço. Finalmente consegui furar sua guarda pretoriana e falar com ele antes que ele pisasse na suntuosa escadaria de mármore quase bi centenário que dá acesso à prefeitura (Palácio Moysés Vianna).

Para minha surpresa ele fora avisado pela Valéria que eu desejava um breve  “téti-a-téti” e se mostrou extremamente   acessível e se prontificou a colaborar. Estranho. Todas aquelas semanas angustiantes culminando com um epílogo que durara pouco mais de um minuto.

“Nicola, meu amigo….prosseguiu o prefeito….  estou sabendo da viagem de vocês e do convite. Pode deixar comigo. Tudo tranquilo. Toca ficha!”

Janeiro….Fevereiro….Março…..

Dia 7 de março. De novo o número sete. Foi neste dia em fevereiro que o prefeito chegou e me atendeu dois dias após. Coincidência é o que se segue. Foi exatamente neste dia que ele me chamou e juntamente com seu chefe de governo Enrique Civera no seu gabinete que me dera a notícia que eu não esperava. O único ônibus disponível não retornara da oficina e não havia data para tal. Resumindo. Não pode cumprir sua promessa e por consequência, o mais triste, era que eu frustrara a turma daqui e quiçá de Manoel Viana. Vou lembrar ao hipotético leitor da curiosa coincidência. O prefeito que chegou num dia sete e me recebeu dois dias depois… Chamou-me também hum dia sete e, vejam só esta cabala, dois dias antes do torneio do Ciro em Manoel Viana marcado que estava para dia nove de março, sábado.

EPÍLOGO

Compromisso é compromisso. Não poderia deixar o amigo Ciro na mão. Mandei meu carro para revisão e fui. Mas o drama não era ir à cidade Manoel Viana, mas quem levar. Se convidasse um em detrimento doutro eu não estaria sendo correto, imparcial. Muito feio. Até  correria o risco de cair em descrédito. Na medida do possível até porque o tempo era exíguo e a turma fora avisada da viagem – fui ligando (telefonando) para meus diretores do Bobby Fischer Xadrez Clube colocando-os a par do vexatório incidente e cancelando  a viagem.  No melhor estilo e corroborando a letra do trecho da música Iracema interpretada pelo seu autor – o saudoso Adoniran Barbosa … quando ele diz “PACIÊNCIA IRACEMA, PACIENCIA…O CHOVER NÃO TEVE CULPA, IRACEMA, PACIENCIA…”  eu substituo os personagens pelo PACIENCIA, PEDRO…PACIENCIA… e acrescento …. tenha cautela e não se iluda por tão pouco. Tu já é macaco velho….

Sábado, dia 9 de março 04h02min.

Com todo material devidamente catalogado – relógios, peças, tabuleiros, computador impressora e folhas partimos em direção a Manoel Viana. Eu e a equipe de arbitragem.  Viagem mais ou menos tranquila apesar de determinados trechos da rodovia estarem em péssimas condições de conservação. Entre idas e vindas ao sentido contrário para desviar dos buracos logramos chegar as 06h20min daquela madrugada de um sábado que hora ameaçava tormenta e hora se mostrava amistoso exibindo  os primeiros raios de sol.

Minha equipe dormia tranquilamente quando eu peguei minha garrafa térmica e o chimarrão e sentei num banco na Praça Central em frente ao colégio Salgado Filho onde serão (ou sempre foram) realizados os jogos. Dali um pouco resolvi acordar o Ciro que apesar de trabalhar em Manoel Viana mora em Alegrete cerca de umas três dezenas de quilômetros dali. Telefonei. Demorou a atender. Olhei para o relógio e já era 06h30min.

– Alô, Ciro, bom dia… Tenho uma péssima notícia para ti!

– O que foi? Aconteceu algo?

– Sim, de pronto respondi!

– O que foi vivente?

– Não poderei ir até aí, deu zebra.

– Sim tu me já explicaste o problema com o ônibus, sei disso, mas… Qual o problema?

– Tu me ouve, mas não entende. Acorda e escuta!

– Deu uma baita zebra e não vou poder ir até aí!

– Mas tu me avisas de última hora… o que vou fazer, está tudo organizado.

– Vou falar pela última vez e veja se me entende. Não poderei ir até Manoel Vianna pelo simples fato que já estou aqui há dez minutos!

… Risos e muita descontração…

– Mas cara, esbraveja Ciro, o torneio começa as 09h30min ou 10h00min. O que tu faz tão cedo aí?

– Eu sou doente (no bom sentido, se é que existe alguém que tenha este tipo de moléstia) por horário e gosto (prezo) por chegar sempre com antecedência e arrumar tudo com calma.

– Bueno… Daqui um pouco chego aí. Inté!

08h00min

Uma hora e meia depois com a cara toda amassada o Ciro chega e cabe a ele telefonar para a diretora Ilka de Ávila do colégio para pedir que venha abri-lo.

Não demorou muito para tudo ficar arrumado. Tabuleiros com as peças, numerações e as bandeirinhas – tudo devidamente organizado. Aos poucos Ciro foi confirmando os inscritos e bastava esperar que chegassem.

Como era de se esperar a turma local foi a primeira a chegar. O pessoal de Barra do Quaraí chefiada por Argemiro Rocha não tardou e com ele ninguém menos do que o eventual e virtual campeão João César Júnior, um bom e velho conhecido de outros carnavais. Já dera baile no torneio barrense (Barra do Quaraí) no ano retrasado quando se sagrou campeão. Seu favoritismo cresceu na medida em que soube da ausência da turma de Santana do Livramento, Rivera, Argentina, Venezuela e Cuba.

A quarta edição do Torneio Cidade de Manoel Viana que teve apoio das suas Secretarias correspondentes e de importantes segmentos Manoelense como BANRISUL, SESC, CORSAN entre tantos que se curvaram em reverencia ao grande campeão e a equipe de Argemiro que levou praticamente todos os prêmios.

Tanto na abertura quanto na cerimônia de encerramento foram preambuladas pelo Hino Nacional Brasileiro e com a presença de grandes e idolatradas autoridades com destaque para o novo gerente do BANRISUL local Gustavo Lajus que prestigiaram em massa o evento cuja  arbitragem ficou sob a responsabilidade da equipe do Bobby Fischer Xadrez Clube chefiada pelo seu presidente – o jornalista Pedro Nicola. Coube ao Prefeito- Jorge Gustavo Costa Medeiros dar as boas vindas aos visitantes agradecendo e desejando sucesso naquela quarta jornada do torneio de xadrez e ao seu Vice Jose Luiz Rosso descerrar os jogos. Também discursaram a Secretaria de Educação Ana Margarete Migoto, o coordenador Ciro Manoel Fonseca Rodrigues. E um dos pontos altos ficou por conta do exaustivo discurso do grande Secretario de Cultura- Paulo Pugliero que além e enaltecer o ocorrido prometeu que irá se esforçar para firmar uma importante e indispensável parceria com o BANRISUL para em 2020 transformar Manoel Viana no principal polo enxadrístico do Rio Grande do Sul e quiçá do MERCOSUL cujos contatos do Bobby Fischer através de seu consulado na Argentina com o Mestre FIDE José F. Campos (Cônsul geral) poderão trazer para Manoel Viana grandes e idolatrados enxadristas de pelo menos seis países e de outros Estados brasileiros.

O TORNEIO 965 REALIZADO PELO BFXC

Com a presença massiva de enxadristas das mais variadas idades entre meninas, meninos, jovens de ambos os sexos, adultos e alguns pouco mais do que isso – explicando, como o sênior João César da Rosa de Uruguaiana e o veteraníssimo alegretense Othon Pinho – um bravo sobrevivente de um feroz ataque de abelhas que levou 32 picadas e teve dois cachorros mortos. Acredite. Manoel Viana se orgulha de ter um vereador mirim de 13 anos – Érico Saldanha que obteve o primeiro lugar em sua categoria e lugar cativo dentre as autoridades.

Em tempo…

João Cesar, o jovem, vence 4º Torneio de Xadrez cidade de Manoel Viana!

Cabe aqui explicar o título desta crônica – o porquê  está em latim. Ocorre que após o emparceiramento da primeira rodada foi detectado a troca de dois nomes e como tudo havia começado o risco de corrigir os nomes seria iminente. E, por se tratar de pai e filho – logo a brincadeira foi inevitável, ou seja… César o jovem e César o velho.

Um pouco de História Romana…

Caius Plinius Caecilius Secundus em latim – também conhecido como Plínio, o Jovem, foi, a exemplo do seu tio Plínio, o Velho – um historiador, orador no governo do imperador Trajano em 70 D.C. Por sinal, este, por desígnios de sua profissão de historiador e exímio orador morreu em decorrência da grande erupção do vulcão Vesúvio (79 D.C.) Plínio, o Velho também foi jurista e governou a província Romana de Bitínia. Hoje o que sabemos desta catástrofe vem das cartas deixadas por Plínio, o Jovem que conseguiu fugir de Pompéia a tempo além da troca de cartas entre Plínio e o imperador Trajano, preservadas até os dias de hoje, são considerados um dos mais valiosos documentos para entender a organização e a vida cotidiana do império romano da época. Nelas, Plínio cita pela primeira vez o cristianismo num documento romano conhecido.

Se Plínio, o jovem governou a Bitínia – César, o jovem (João César Júnior) também teve seu reinado inabalável. E fora conduzindo seus exércitos integrados por peões, cavalos, torres, clérigos além de rei e uma rainha que dominou seus feudos controlando-os desde a mesa 01 onde se sentia o verdadeiro Vesúvio do século XXI. Se por ventura fora ou sentia-se ameaçado coçava sua barba negra fazendo alusão às brumas tóxicas do vulcão e sem demora seu adversário entendia o recado e desistia da invasão. Enquanto César o Velho lutava para conquistar um pontinho aqui outro ali – seu herdeiro jamais esboçou nenhuma compaixão tampouco remorso por ver seu pai de feudo em feudo lutando bravamente.

César, o jovem venceu todas as sete batalhas e venceu a guerra da ginástica da inteligência e esporte da lógica abstrata. César foi soberano neste sábado dia nove de março – só não pôde colocar a coroa de louros porque não o deram. Não ligou. Ficou com o título de grande campeão invicto e no íntimo, cá para nós, deve ter ficado extremamente agradecido ao prefeito de Santana do Livramento que não disponibilizou o ônibus para que os indigites – os verdadeiros algozes da fronteira oeste e arredores pudessem disputar a quarta edição do Torneio Cidade de Manoel Viana. Seu troféu de campeão está bem seguro e ninguém precisa saber que neste torneio não tinha jogadores à sua altura.

Classificação Final

Classificação de pontos por cidade:

Cerimônia de Abertura

Cerimônia de Encerramento/Premiação

As Disputas:

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